O Caminho de Santiago de Compostela

10/02/2018 08:15

 

Quem viaja cronicamente, é lógico, também tem amigos viajantes crônicos. Nessa rede de solidariedade que envolve pessoas com interesses comuns, como são os encontros proporcinados por este blog, trocamos experiências, informações preciosas e até sonhos, quando se trata de viagens. Na matéria abaixo nossos amigos tratam de sua incrível experiência - é assim que devemos chamar! - no caminho de Santiago de Compostela. Agradecemos o cuidadoso relato, vamos aproveitar? Vejamos:

 

Foi num passeio de bicicleta durante os primeiros meses de nosso encontro amoroso que surgiu a ideia do Caminho. Eu já havia ouvido falar através de uma amiga que realizara  por duas vezes. Na época fiquei com vontade. No dia que propus ao Antônio ele aceitou de pronto e começamos a trocar sites sobre a viagem que ocorreria um ano depois. O desejo foi num crescente e antecipamos a viagem para o mesmo ano e em dois meses já tínhamos as passagens compradas e duas hospedagens reservadas,para os dois primeiros dias. O propósito: percorrer 800km de bicicleta pelo Caminho Francês, uma das dezenas possibilidades de se chegar a Santiago de Compostela, a cidade onde foram encontrados os restos mortais do discípulo São Tiago. Adquirimos algumas dicas com o casal de amigos que já tinha realizado e um mapa com a Lúcia, uma pessoa residente em nossa cidade que havia acabado de voltar do Caminho Português e gentilmente nos ofereceu ao saber que iríamos. Lá fomos nós. Saímos do Rio num sábado à noite, durante o outono europeu (a época foi escolhida baseada em dicas que diziam que outono e primavera eram melhores épocas a fim de evitar condições climáticas extremas e turismo em efervescência) e chegamos em Madri no domingo pela manhã. Era um misto de ansiedade e alegria por estar ingressando numa aventura que não tínhamos sequer ideia do que seria. 

 

 

De Madri para Pamplona pegamos um trem, saindo da estação de Atocha. Pagamos caro pela passagem por não termos reservado e as mais baratas já terem sido vendidas. Dica: reserva sua passagem para não cair nessa armadilha. O destino era Pamplona, que ficava a cerca de 3 horas de trem e depois pegar um ônibus para Saint Jean Piet de Port, uma cidade francesa como essas cenográficas de paisagens deslumbrantes, situada a 15km da fronteira entre França e Espanha, aos pés do Pirineus. A descida até Saint Jean é linda, curvas nos mostram montanhas incríveis, florestas e construções medievais pelo caminho. Chegamos a Saint Jean quase ao anoitecer e fomos direto ao albergue Gite Ultreia, que nos recebeu com todas as informações necessárias para nossa saída na segunda bem cedo. As bicicletas, que alugamos com uma empresa brasileira na Europa, a Bikeline, já estavam lá, nos esperando. Saímos para conhecer a cidade já de noite e comer algo. É legal chegar um dia antes para aproveitar Saint Jean Piet de Port e descansar da viagem antes de começar o Caminho. O tempo era curto e queríamos começar logo a aventura. Sabíamos que esse primeiro trecho de 25km até Roncesvalles onde tínhamos a segunda estadia reservada seria a pior subida do trajeto mas não tínhamos ideia do que nos esperava. Começamos a pedalar animados, os 5kgs de bagagem devidamente acomodados nos dois alforjes laterais de cada bicicleta e o coração batendo forte. Após algumas dificuldades para encontrar a saída para deixar Saint Jean e estando acompanhados de um colombiano simpático chamado Gabriel começamos a subir. Subir, subir, subir... O clima agradável trazia uma brisa fresca, as paisagens bucólicas de pastos e fazendas com vaquinhas balançando sinos no pescoço (vacas típicas do país basco segundo um senhor francês que pacientemente caminhava em companhia da filha e dava informações cada vez que cruzávamos com eles...) evocava a certeza de que havíamos deixado para trás muita coisa e desejávamos chegar em Santiago. Esse era o objetivo. 

 

 

 

A subida do Pirineus foi se mostrando cansativa, longa, passamos por picos em que as nuvens nos cobria lentamente para em seguida se esvaírem em um chuvisco...os peregrinos de diferentes países, mochilas de tamanhos variados, tudo isso me colocava em comunhão. Motivos diferentes, mesmo objetivo. Um pouco antes de finalmente descer os cinco últimos quilômetros nos demos conta de que não tínhamos levado nada para comer. Como assim? Pessoas tão preparadas, que haviam pedalado em média três vezes por semana numa região montanhosa de Minas Gerais, acostumadas com o desgaste e a necessidade de água e alimentação... sim, não havíamos levado nada! Era um exemplo de como a excitação pode nos fazer esquecer detalhes importantes. Antônio num lampejo intuitivo lembrou de um pedaço de chocolate que havia comprado na rodoviária no dia anterior e aquele chocolate foi um dos mais saborosos que já tínhamos comido em toda a vida. Naquele momento entendi que de nada adiantava se preparar, a vida muitas vezes só exige que você se entregue. Logo após começamos a descer e então, com chuva, passamos por um bosque que me fez lembrar de filmes como Robin Hood ou A Bruxa de Blair. Só nós dois por muito tempo andamos sob aquela chuva fininha, por um bosque misterioso... era o Bosque de Irati; para enfim chegarmos a Roncesvalles. Sair desse cenário e colocar os olhos numa conjunto arquitetônico antiquíssimo construído para servir de hospital aos peregrinos no século X foi um bálsamo maior ainda. Há poucas horas estávamos exaustos, em uma subida interminável, sem saber quanto já tínhamos subido...agora...descíamos relaxadamente para ter essa visão que remetia a acolhimento e conforto. Nossa natureza é surpreendentemente influenciável. 

 

 

 

 

Roncesvalles conta somente com esse hotel (foto abaixo), Hotel Roncesvalles, e um albergue municipal para peregrinos.  Já havíamos recebido a dica de que reservar essa hospedagem faria muita diferença depois da dura subida do Pirineus. Foi uma dica de ouro! Jantar delicioso, camas confortáveis,banho quente e café da manhã razoável... partimos para Pamplona no dia seguinte. Seriam aproximadamente 40km, passando por cidades charmosas com suas sacadas floridas e bosques. 

 

 

Para chegar a Pamplona percebemos que o caminho dos peregrinos quase sempre passava por morros, regiões pedregosas e que na maior parte das vezes evitava as estradas de asfalto para segurança dos peregrinos, o que poderíamos usar a fim de que o trajeto de bicicleta fosse mais confortável; afinal, carregar a bicicleta algumas vezes por escadas e rochas não parecia muito prático se comparado com alguém que levava apenas uma mochila. Seguíamos com esperança o símbolo da vieira (concha carregada pela maioria dos peregrinos como símbolo de devoção durante o trajeto e usada para sinalizar o percurso) que incrustado em rochas, totens e até mesmo no chão sinalizava o caminho. Conta a lenda que os restos mortais de São Tiago foram levados de navio para a Península Ibérica e uma forte tempestade naufragou a nau; logo em seguida o corpo foi encontrado na costa coberto de vieiras. A vieira também simboliza todos os caminhos que confluem a Santiago. 

 

 

Chegando em Pamplona, ficamos  em uma hospedaria familiar, um andar de prédio histórico bem no centro em que os quartos são alugados, os banheiros coletivos e sem café da manhã. Conseguimos a informação da hospedaria num centro de informação turística ao peregrino. Saímos para conhecer Pamplona, cidade de aproximadamente 200 mil habitantes, capital da província de Navarra; charmosa, limpa, organizada e onde ainda ocorrem na Espanha as corridas de touros (encierros) e touradas. Observamos que era comum os restaurantes oferecerem o "menu del dia", cardápio sugestivo onde por cerca de 13 euros comíamos dois pratos da culinária espanhola, pão, água, vinho e sobremesa. Pronto, esse seria nosso dia a dia. Desfrutar do Caminho pedalando em média 50km por dia, chegar ao destino possível, procurar por hospedagem e sair para conhecer a cidade degustando os pratos típicos e planejando a próxima etapa.

 Terceiro dia, destino Estella. Para chegar passamos pela Serra do Perdão, subida e descida pedregosa com uma igreja linda no trajeto. Ao topo um monumento aos peregrinos com os dizeres - "Onde se encontra o caminho do vento com o das estrelas"- , referência ao encontro do parque eólico localizado nesse local e o Caminho de Santiago que também é associado à Via Láctea que servia como referência para encontrar Santiago durante a noite. 

 

 

Puente La Reina é uma cidade pequena, 2000 habitantes, mas ostenta delicada ponte românica construída por uma rainha sobre o rio Arga no século XI. Ao chegar em Estella, encontramos um albergue que foi um mosteiro, o albergue dos Capuchinhos e por sorte, uma oficina de bicicletas para que alguns ajustes fossem feitos. Comida simples, justa, caseira no próprio albergue e descanso! Por coincidência ficamos hospedados no mesmo local que dois casais argentinos com os quais sempre cruzávamos. Simpáticos e animados, as conversas e troca de informações sempre eram bem vindas. Sentíamos algum tipo de acolhimento familiar ao lado dos "hermanos". Saímos juntos de Estella, nós seis, nos separamos mas novamente os vimos em Los Arcos. Eles haviam optado por dessa vez fazer o trajeto até Los Arcos pelo asfalto, sem saber que o trajeto pelo caminho convencional estava tranquilo, plano e muito bonito. Eram campos, vinícolas e povoados. 

 

 

Fomos até Logroño, já situada na província de La Rioja  e a cidade estava comemorando o dia do padroeiro (São Mateus) naquela noite. Tantos fogos, bandeiras coloridas, o povo na rua, concertos em igrejas, bandas pela cidade, um pão com linguiça temperada e vinho no copo descartável por 2 euros e uma certa dificuldade para encontrar onde dormir. Naquela noite jantamos em cantina italiana, conversamos com garçom brasileiro e tomamos sorvete de frutas assistindo ao movimento da festa popular.

        De Logroño a Santo Domingo de La Calzada pedalamos os habituais aproximados 50km de sempre, passando por lugares pitorescos. Na saída da cidade de Logroño após pedalarmos em um agradável parque, um eremita chamado Marcelino contava histórias de suas peregrinações, sendo a primeira no Caminho de Santiago em 1972 e tendo percorrido 3000km peregrinando em 2004 por outros caminhos. 

 

 

Chegamos a Santo Domingo, lugarejo simpático e a lenda engraçada de um homem envolvido num milagre foi materializada  com um galo e uma galinha vivos dentro da igreja após os mesmos terem ressuscitado numa mesa de jantar pela fé dos pais do homem que havia sido acusado de roubo. O que aconteceu foi que esse peregrino alemão ao passar por uma estalagem durante o séc. XIV, foi objeto da paixão da jovem camponesa que lá vivia e que para não o ver partir colocou em sua bolsa uma taça de prata e o acusou de roubo. O jovem foi condenado à forca e os pais ao irem vê-lo na forca escutam nitidamente a voz do jovem dizendo que está vivo graças a São Tiago. Os pais correm ao corregedor de justiça para contar o ocorrido e este diz em frente à mesa de jantar: "seu filho está tão vivo quanto esse galo e essa galinha que eu estava disposto a comer antes de me importunarem." Nesse momento os galináceos se colocam de pé e começam a cantar. O casal de penas fica num local de prestígio dentro dessa encantadora igreja em Santo Domingo e são trocados a cada 15 dias.

Encontrar estadia em Santo Domingo foi complicado. Dormimos em um albergue barato pois não estávamos dispostos a pagar os euros abusivos do hotel luxuoso cujas habitações ainda restavam naquele dia. Foi desafiador passar a noite naquele quarto com mais 8 pessoas, roupa de cama suspeita e pensar no tal carrapato (chinche) que já haviam nos alertado, carregado por muitos peregrinos ao deixar suas mochilas em pastos durante o caminho. Saímos de Santo Domingo cedinho pois o albergue tinha o horário de 7:15 como máximo para a saída de todos, e isso fez com que nosso dia rendesse bastante e pedalássemos 80km até Burgos sendo a maior parte do trajeto por asfalto. Até o final do dia nenhum sinal da presença de carrapatos! 

 

A chegada em Burgos foi encantadora, passamos por um parque com ciclovia que margeava a cidade por cerca de uns 10km. Predominantemente turística, com uma das catedrais mais lindas que já vi. Foi quase impossível encontrar onde ficar. Era sábado e não havíamos pensado que numa cidade turística como essa poderíamos ter dificuldade em conseguir onde dormir. Só encontramos hotel tarde da noite e por isso decidimos que passaríamos o domingo passeando e descansando. Decisão acertada. Hotel confortável, com vista esplêndida da catedral, café da manhã de nobreza em relação ao que estávamos acostumados, para compensar os 80km do dia anterior e o estresse de quase não conseguir estadia.

 

 Burgos está situada na província de Castilla y León, possui aproximadamente 170 mil habitantes e segundo informações do Sérgio, português simpático que nos serviu algumas cervejas logo na chegada, a cidade no inverno fica quase impossível de ser visitada devido a grande quantidade de neve. Sua catedral é um templo à Virgem Maria (Catedral de Santa Maria de Burgos) e começou a ser construída em 1221 sendo proclamada patrimônio da humanidade em 1984. Apresenta estilo predominantemente gótico mas em seu interior encontram-se várias obras de artistas renascentistas e barrocos. Um esplendor luxuoso da época em que a monarquia e a igreja católica andavam de braços dados. São capelas e mais capelas articuladas e dedicadas a um santo por alguma família monárquica; todas repletas de esculturas, quadros, retábulos dourados e mausoléus.

 

 

Saímos de Burgos bem cedo, a ideia era pedalar até Frómista, a 65km dali passando por Castrojeriz, povoado onde descansamos numa casa que servia como albergue e lanchonete, além de ter delicioso jardim de lavanda, delicado aroma que nos acompanhou durante algumas partes do trajeto. Ao chegar em Frómista nossos colegas "hermanos" que estavam um dia à frente, haviam feito a reserva no hotel que ficaram, além de nos dar dicas do que nos esperava. Dali pra frente estabelecemos que a reserva era necessária e sempre fazíamos na noite anterior à nossa saída. Frómista é uma cidade pequena, interiorana, me lembrou os lugares esquecidos no mapa que por obra do turismo recebe um afluxo de pessoas bem maior do que receberia normalmente. Jantamos num estabelecimento duvidoso mas que logo se mostrou acolhedor dada a simpatia do proprietário,a qualidade da comida e também as duas garrafas de vinho que havíamos tomado.

        Agora estávamos pedalando nas mesetas espanholas, um tipo de planalto, eram quilômetros e mais quilômetros de estradas em saibro cercadas por campos intermináveis de trigo, poucas construções e horizonte azul quase sem nuvens. Saímos sem reserva de hostel, sem saber até onde conseguiríamos pedalar e terminamos em Bercianos del Real Camino, um município de 205 habitantes onde nem igreja havia. A chegada em Bercianos foi agraciada com um hostel incrivelmente bem decorado, de comida maravilhosa, vinhos deliciosos. Foi o primeiro que vimos e já nos instalamos. Um oásis de modernidade em um deserto inóspito. Não havia o que fazer naquele lugar a não ser ver o pôr do sol e descobrir que no ócio e na simplicidade o espetacular sempre está, basta ter olhos para ver. 

 

Saímos cedo tendo como destino León, cidade de muitas batalhas antigas principalmente com os mouros; monumentos belíssimos, até Gaudi construiu lá. Ainda nas mesetas chegamos cedo a León e tivemos tempo suficiente para entrar num bar, pedir cervejas, uma tábua de queijos com membrillo (tipo de doce parecido com marron glacê) e pesquisar local para ficar. Encontramos albergue que tinha honesto quarto para casal e banheiro compartilhado, máquina de lavar roupas por 3 euros (sensação de alívio quando essas máquinas apareciam pois lavar as roupas a mão embaixo do chuveiro sem garantia de que secariam no dia seguinte já estava trazendo algum desconforto olfativo), num local um pouco distante do centro por onde caminhamos à noite, Antônio cortou os cabelos e sentimos a vida noturna de León. 

 

 

De León a Astorga pedalamos por caminhos onde as pessoas escreviam nomes e palavras com pedras. Ao final de uma subida nos deparamos com certo local ornado com jardins, provavelmente algum peregrino que encontrou sentido em receber outros peregrinos com água, frutas, sucos, sementes, dicas e em troca receber contribuição consciente.

Astorga é uma cidade interessante, há uma palácio episcopal projetado por Gaudi e suas formas arquitetônicas orgânicas trazem leveza e modernidade a tantas construções barrocas que encontramos pelo caminho. 

 

 

A saída de Astorga foi emocionante. Nascer do sol e café da manhã, os já clássicos croissants juntos do café com leite num barzinho simples mas de várias histórias contadas pela senhora que tinha um mapa mundi todo espetado com alfinetes coloridos marcando as nacionalidades que passaram por ali e sentia se orgulhosa em dizer as diversas nacionalidades que havia conhecido. Claro que fomos lá procurar apertadinha naquele mapa Minas Gerais e a saudade de casa que já estávamos sentindo.

Seguimos para Ponferrada, a cidade dos Cavaleiros Templarios. No caminho encontraríamos a Cruz de Ferro, a 1504 metros de altitude, cruz de uns 5 metros que recebia pedras que os peregrinos traziam de todos os lugares do mundo como forma de pedir proteção à peregrinação. 

Descemos 20kms de curvas até Ponferrada, o que foi algum desgaste dos freios e várias doses de adrenalina extra. A cidade de Ponferrada trouxe a história dos Cavaleiros Templarios, ordem de cavaleiros que existiu por dois séculos durante a Idade Média com o objetivo de proteger os cristãos que queriam voltar a Jerusalém após a sua conquista. Depois de um tempo a própria Igreja resolveu queimar essa galera toda em fogueira. Vai entender...Visitamos um castelo dessa ordem que abrigava uma incrível biblioteca com fac símiles e originais de livros medievais. 

 

 

Sair de Ponferrada e ir até Herrerias, ponto estratégico de hospedagem para então subirmos até O Cebreiro que segundo as dicas era a segunda subida mais forte... já tinham sido tantas. Seguíamos. A todo momento a paisagem mudava, os peregrinos também, as tantas línguas faladas e por todo o Caminho uma só saudação: Buen Camino!

Chegamos em Herrerias cansados, a pousada com nome sugestivo, Capricho de Josana, e ah... banheira com água quente, músculos relaxados e jantar delicioso no restaurante da própria estalagem!

 Despachados os alforjes para a próxima cidade, pedalamos com menos 10kgs e foi mais prazeroso subir, subir e chegar numa vila medieval de clima fresco. 

 

 

O senhor que viajava com sua companheira e cujo casal estávamos encontrando pela terceira vez consecutiva (a primeira em Villafranca eles se aproximaram oferecendo figos, a segunda em Herrerias na mesma estalagem que nos abrigou) nos casou em frente a essa pia e aos pés do Cristo dizendo que nos declarava marido e mulher. Casados ficamos. Surpresas do Caminho.

        Estávamos na Galícia, a província espanhola mais distinta em termos culturais, possuindo até mesmo uma língua própria e culinária diferenciada. Descemos até Sarria, onde pernoitamos e começamos os dois dias finais do trajeto. Saímos de Sarria junto a muitos peregrinos, sobretudo jovens em peregrinações escolares e pessoas que desejavam percorrer somente os últimos 100km do Caminho Francês, o que já dava direito à Compostela (documento fornecido por um órgão municipal em Santiago comprovando a façanha). Esse dia foi difícil, uma conjunção de desencontros... nos perdemos um do outro, a bicicleta estragou e fomos de táxi até Melide onde seria providenciada a troca da bike e onde comeríamos o tradicional polvo. Já me sentia tão cansada que o dono da empresa que nos alugou as bikes se compadeceu e ofereceu para levar os alforjes até Santiago. Há momentos em que pequenos milagres acontecem e nosso ser é só gratidão.

        Último dia, seguiríamos até Santiago pelo asfalto, por 58km e nesse momento a emoção aumentava em satisfação, coragem e prazer. Chegar em Santiago é como chegar em casa depois de um dia vivido. Fazemos coisas, conhecemos novas possibilidades, nos deparamos com dificuldades, encontramos pessoas, comemos, respiramos, andamos, trabalhamos, enfim, vivemos para chegar em casa no final do dia. É simplesmente isso. E simplesmente isso para entendermos que o fim do caminho não é o mais importante, mas como você percorreu esse caminho. Com que nível de consciência física, mental, emocional e espiritual você viveu até chegar? Assim é a vida, caminhamos todos para a morte desde que nascemos e isso é tão certo quanto o nascer e o pôr do sol. A diferença está em como vamos percorrer esse caminho entre a primeira respiração e a última. A diferença está em como viver.