Viagem e gafes (políticas)

05/09/2014 18:24

 

Viagem internacional é um convite à gafe. Por mais que pensemos ou nos consideremos familiarizados com o pais para o qual estamos nos dirigindo, tenha certeza de que não conhecemos o suficiente a realidade local. O risco de cometer gafe, ou seja, de falar ou expressar algo fora do seu contexto é grande. O antídoto mais seguro para se evitar as gafes seria o silêncio e a observação atenta. Mas, não tem jeito, quem não se arrisca não se socializa. Logo, qualquer um poderá ser vítima de sua própria gafe. Deixe-nos falar de uma de nossas preferidas.

 

Em tempos de calorosa discussão política no Brasil, discussão que a cada dia se polariza cada vez mais com os rótulos de "comunistas", de um lado; de outro "reacionários", ficamos pensando em nossa estada na distante Polônia. Já nos referimos outras vezes sobre algumas de nossas experiências naquele pais (Ver: laura-no-mundo.webnode.com/news/polonia-lingua-cultura-e-perrengues/ ). Foi um lugar que, por conta das dificuldades linguísticas, produziu muitas gafes. Uma delas, tem menos a ver com questões linguísticas, e mais, justamente, com o debate político e a polarização ideológica.

 

Chegamos naquele pais muito jovens como bolsistas da Universidade de Varsóvia. Em qual contexto? Bem, o pais estava em grande ebulição social, política e econômica. Há apenas cinco anos a Polônia havia compreendido, com toda a extensão da palavra, o sentido da expressão liberdade. URSS havia desmoronado. Como legado, algumas gerações de poloneses nutriam profundo rancor contra os soviéticos. Soviéticos eram sinônimo de controle, opressão e violência. Basta lembrar que o Papa João Paulo II era polonês e, como é de conhecimento de todos, teve importante papel na derrubada da URSS e o que se convencionou chamar de libertação dos paises satélites. 

 

Enfim, a Polônia era quase toda alegria, afinal, tinha pela frente, na perspectiva deles, a liberdade (na política) e o capitalismo em sua feição ultra-liberal (na economia) a serem construidos. Significa dizer que liberdade e capitalismo/liberalismo econômico eram palavras quase coincidentes na expectativa daquele povo. 

 

Bem, imaginem o que poderia significar um jovem latino-americano de esquerda fazer uma fala, na universidade, operando com as seguintes chaves: capitalismo = prisão; liberdade = socialismo! Meus caros, o pau-comeu! E com razão, absoluta razão. Afinal, a experiência concreta dos poloneses com o socialismo real foi sabidamente difícil. Liberdade, sem dúvida, não era uma palavra que pudesse ser combinada com Stalin!

 

 

Eu estava errado? Parcialmente. Acontece que nossa experiência de desenvolvimento do capitalimo produziu historicamente muita desigualdade, problemas de toda ordem, alguns dos quais continuamos enfrentando até hoje. Nosso erro - natureza da gafe - foi não atentar para o quão contextualizadas estavam as palavras "socialismo" e "liberdade" em nossa própria experiência nacional de vida. Na realidade brasileira, essas expressões costumam atrair pessoas que tem algum compromisso ou ligação com as ideias de justiça social e altruísmo. Essa relação (socialimo/justiça social), construida por alguns de nós, não é, contudo, natural ou universal.

 

Em um cenário diferente, como aquele de meados dos anos 90 no leste-europeu, "socialismo"  representava, ironicamente, o oposto do que eu queria dizer! Não estava, portanto, alinhado às ideias de justiça e maior igualdade sociais, mas sim de repressão e injustiça. Daí a gafe com toda sua força e indiscrição!

 

As gafes não precisam ser, digamos, politicamente sofisticadas. Às vezes, ainda que simples, carregam a maior das ironias. Lembro quando convencido de que poderia expressar alguma coisa em polonês, em um restaurante pedi um sorvete. E recebi um prato de pepinos ou coisa que o valha. Ironia que só uma gafe poderia produzir... pepinos na mesa!

 

Sugestões de roteiro para a Polônia:

 

Varsóvialaura-no-mundo.webnode.com/products/varsovia-em-um-dia/

 

Auschwitzlaura-no-mundo.webnode.com/products/auschwitz-polonia/