Polônia: língua, cultura e perrengues

25/08/2014 07:31

 

Escrevemos essa matéria em pleno período eleitoral no Brasil. Foi uma fase em que as perspectivas se acirraram, tudo se carregou nas cores, tanto para um lado, quanto para outro. Passado o período eleitoral, ainda vemos marcas dos posicionamentos, digamos, mais radicais. Por exemplo, ainda há gente que enxergue a implantação do comunismo no Brasil, no momento em que, apesar da crise que nos assola, a economia da mercado se solidifica. Seja como for, essas questões nos estimularam a pensar em uma rica experiência de viagem que tivemos. Explicamos: começamos a conversa com esse tom mais político porque gostaríamos de nos remeter à nossa estada na distânte Polônia.

 

Chegamos no pais apenas 5 anos depois do fim da chamada cortina de ferro, ou seja, do domínio comunista soviético na região. Ainda que o pais já estivesse em progressiva liberalização e abertura, a queda da URSS, em 1991, quase abruptamente impõs um novo modo de vida aos poloneses. 

 

Registro da região da Old Town, no centro de Varsóvia, julho de 1996.

 

O pais abria-se, muito rapidamente, para a economia de mercado. Cinco anos depois desse processo ter dado partida não deixamos de notar os resquícios da presença soviética em seu solo. A começar pelo domínio da língua russa. Poucos falavam inglês, francês ou espanhol. Mesmo em lugares turísticos, havia uma dificuldades incrível de comunicação. Taxi, como já referimos, era uma aventura (ver: laura-no-mundo.webnode.com/news/taxi-para-auschwitz-conversa-entre-loucos1/). Restaurantes não eram diferentes. Costumávamos apontar para qualquer palavra no cardápio e, com esperança, torcer que fosse servido alguma coisa aprasível. 

 

O comunismo, sobretudo de base stalinista, foi responsável pela construção de uma perspectiva de vida muitíssimo peculiar. Era como se a burocratização do partido e do Estado também se estendesse à sociedade. Testemunhamos a instalações de lojas moderníssimas, dessas que encontramos em qualquer zona nobre das cidades. Apesar do requinte, o atendimento ao cliente parecia lembrar o de uma repartição pública (no pior sentido da palavra). Como regra, as pessoas eram bastante grosseiras. A ideia de que "o cliente tem razão", máxima retórica do capitalismo, não tinha sentido por ali. 

 

Old Town, julho de 1996.

 

Somava-se a isso tudo o fato de os poloneses, pelo menos àquela época, terem muita desconfiança dos estrangeiros. Não era por menos: à oeste tinham sofrido invasão dos alemães; à leste, dos russos. Estrageiro era sinônimo de domínio, dor e morte.

 

Estivemos instalados em Varsóvia, uma cidade muitíssimo peculiar, mas também rodamos pelo seu em torno. Em uma das pequenas cidades nas próximas da capital, segundo registro do parlamento local, onde fomos com muita cortesia recebidos, seriamos os primeiros latino-americanos a pisar naquele solo. 

 

Old Town, agosto de 1996.

 

Fomos ao sul do pais (ver: laura-no-mundo.webnode.com/news/os-fantasmas-da-rota-varsovia-cracovia/) e encontramos uma cidade bastante diferente de Varsóvia: Cracóvia. Muitas devem ser as razões para as diferenças. Uma delas, pensamos, pode ser o fato de Varsóvia ter sido completamente destruida durante a Guerra, ao contrário de Cracóvia que foi poupada. Aquela experiência do sofrimento e da desconfiança com relação ao estrangeiro parecia mesmo muitíssimo mais forte entre os cidadãos de Varsóvia se comparado aos de Cracóvia.

 

Podemos concluir, em resumo, que turismo é muito mais do que fazer compras e andar em lugares chiques. É oportunidade de melhor conhecer a experiência humana na terra. A Polônia foi uma excelente oportunidade: vivemos uma incrível fase de transição. Como qualquer transição, pudemos ver uma rica e única combinação entre o passado e o futuro. Tudo ali aos nossos olhos de estrangeiros.

 

Sugestão de roteiro para Varsóvialaura-no-mundo.webnode.com/products/varsovia-em-um-dia/