O Museu de Sissi ou o non sense

08/01/2015 19:21

 

Viajar é se atrever a conhecer o desconhecido. Sem risco, não pode haver viagem de fato interessante, pois não há surpresas. Sendo assim, quando saimos de casa rumo a um destino longe ou no estrangeiro, temos que ter o espírito de ouvir e tentar compreender pontos de vista alternativos ao nosso. Diriamos mais: essa deveria ser a perspectiva dominante da vida (dentro ou fora do pais), mas, digamos que, no exterior, isso se imponha de forma mais clara.

 

 

Bem, nessa boa disposição de melhor conhecer, vez e outra, é claro, quebramos a cara. O caso da Isabel da Áustria é um bom exemplo.

 

 

Essa senhora viveu boa parte do século 19. Foi rainha da Áustria, da Hungria e de outros reinos. Sua beleza atende até os padrões atuais: corpo magro, cabelos longos, rosto bem feito, Sissi, como ficou conhecida, arrebatou corações. Foi casada com o Imperador Francisco José I, sujeito que - ao que tudo indica - muito sofreu nas mãos da confusa rainha. Sissi frequentemente se recusava à cumprir suas obrigações sociais junto à corte real. Os criticos diziam que ela vivia mais fora da Áustria do que no pais. No entanto, a cidade de Viena está tomada de referências à Sissi. Monumentos fazem lembrar a bela rainha É sissi por todo o canto. Situação semelhante pode ser notada em Budapeste. Ora, o que ocorre? Ficamos confusos.

 

O Palácio de Schonbrunn

 

 Acontece que seu prestígio é póstumo. À sua época, Sissi foi objeto de muitas críticas, muito por conta de seu comportamento considerado atípico para os padrões de seu tempo. A invenção da boa Sissi, portanto, foi um fenômeno pensado depois de sua morte e contou com o papel dedicado da imprensa e do Estado. 

Nós descobrimos essa verdadeira esquizofrenia em um museu dedicado à ela. Acontece que muitos visitantes se veem motivados a conhecer um pouco melhor da trajetória da rainha. Quem se dirige ao Palácio de Schonbrunn (Ver: laura-no-mundo.webnode.com/news/viena-o-palacio-de-schonbrunn/) terá também o direito de visitar um pequeno museu no centro da cidade, este todo dedicado à figura de Sissi. E lá fomos nós.

 

Uma das primeira falas sobre a rainha, pasmem, é demolidora. O retrato que se desenha é de uma pessoa autocentrada, egoista e deprimida. No meio do caminho começamos a nutrir uma imensa antipatia pela rainha, pois não são poucas as suas posturas, digamos, bizarras e porque não dizer, grosseiras. O mito se desfaz e vai ao chão. Por um lado, esse desencantamento não é nada ruim, pois vemos uma pessoa humana, repleta de defeitos, e não são poucos.

O Museu de Sissi

 

Ao mesmo tempo em que o Museu se compromete em derrubar o mito, nada constroi em seu lugar, resta apenas a imagem de uma mulher triste e vazia que, em uma espécie de obra do destino, morre assassinada. No vazio, ficam à exposição seus utensílios pessoais, pratos, roupas intimas e outras coisas que, nesse contexto, perdem total sentido.